Crónica - Depois do impossível, o mais difícil é continuar


Portugal venceu a Espanha quando poucos acreditavam. Três dias depois, caiu diante da Geórgia. Entre a euforia e a desilusão existe talvez a maior lição que esta Seleção terá de aprender rumo ao Mundial de 2027.
Há vitórias que mudam a forma como olhamos para uma equipa.
E depois há derrotas que nos obrigam a perceber quem essa equipa realmente é.
Portugal chegou a Matosinhos carregado de algo que há muito não sentia daquela forma.
Confiança.
Depois da histórica vitória em Espanha, diante de uma das grandes potências europeias do basquetebol, era impossível não olhar para esta Seleção de outra maneira.
Durante anos, Portugal habituou-se a lutar.
A tentar.
A resistir.
Mas, em Saragoça, fez mais do que isso.
Venceu.
E não venceu um jogo qualquer.
Venceu uma fronteira.
Aquelas fronteiras invisíveis que durante demasiado tempo parecem separar as equipas que sonham das equipas que realmente acreditam que podem chegar lá.
Por alguns dias, Portugal deixou de ser apenas uma Seleção à procura de um lugar.
Passou a ser uma Seleção capaz de incomodar quem está habituado a estar no topo.
E talvez tenha sido precisamente aí que começou o verdadeiro desafio.
Porque chegar é difícil.
Mas continuar a chegar é ainda mais.
O peso de acreditar
Em Matosinhos, Portugal entrou em campo diferente.
Não necessariamente diferente na forma de jogar.
Mas diferente na forma como era olhado.
Já não era apenas a equipa que procurava surpreender.
Era a equipa que acabara de surpreender a Espanha.
E isso muda tudo.
Muda as expectativas.
Muda a pressão.
Muda a responsabilidade.
Durante a primeira parte, Portugal mostrou que a vitória em Espanha não tinha sido um acidente.
Houve intensidade.
Houve qualidade.
Houve personalidade.
Ao intervalo, a vantagem era portuguesa.
42-41.
O jogo estava onde Portugal queria.
Mas o desporto não se joga apenas nos momentos em que tudo corre bem.
É nos momentos em que o jogo começa a fugir que se percebe a verdadeira dimensão de uma equipa.
E foi aí que Portugal perdeu mais do que bolas.
Perdeu controlo.
Há jogos que se perdem antes do apito final
Não foi uma derrota construída num único lance.
Não foi um triplo.
Não foi uma decisão.
Foi acontecendo.
Devagar.
Quase silenciosamente.
Uma perda de bola.
Outra.
Uma decisão precipitada.
Um contra-ataque adversário.
A Geórgia crescia.
Portugal hesitava.
E, quando uma equipa hesita perante um adversário experiente, o basquetebol não perdoa.
Os números contam uma parte da história.
Seis turnovers na primeira parte.
Dezanove no final do encontro.
Mas os números não conseguem explicar aquilo que se sente dentro de um campo quando o jogo começa a escapar.
A ansiedade.
A pressa.
A vontade de resolver tudo num ataque.
E talvez tenha sido esse um dos maiores problemas de Portugal.
Querer recuperar depressa demais aquilo que ainda tinha tempo para recuperar.
Entre Saragoça e Matosinhos
Três dias.
Foi esse o espaço entre uma das maiores vitórias da história recente do basquetebol português e uma das derrotas mais frustrantes desta caminhada.
Três dias.
Em Saragoça, Portugal mostrou que conseguia vencer gigantes.
Em Matosinhos, percebeu que também terá de aprender a vencer jogos que, à partida, parecem mais acessíveis.
Porque é essa a diferença entre surpreender e afirmar-se.
Uma grande equipa pode vencer um gigante.
Uma equipa verdadeiramente competitiva consegue fazê-lo e, depois, mantém o nível.
É aí que Portugal quer chegar.
E talvez seja exatamente por isso que esta derrota, por mais dolorosa que seja, possa ter um valor maior do que parece.
Neemias não pode carregar um país sozinho
Neemias Queta voltou a fazer aquilo que se espera dos grandes jogadores.
Apareceu.
20 pontos.
11 ressaltos.
Liderança.
Presença.
Mas há algo que esta Seleção terá inevitavelmente de compreender.
O sonho do Mundial não pode viver apenas nos ombros de um jogador.
Por melhor que seja.
Por mais dominante que seja.
Por maior que seja o seu nome.
As grandes histórias das seleções não são escritas por um homem.
São escritas por equipas.
E Portugal tem talento suficiente para perceber isso.
Tem jogadores capazes.
Tem qualidade.
Tem uma geração que começa finalmente a acreditar que o basquetebol português pode ocupar outro lugar no panorama internacional.
Mas acreditar não basta.
É preciso transformar essa crença em consistência.
O sonho continua vivo
É fácil acreditar depois de vencer a Espanha.
Difícil é continuar a acreditar depois de perder em casa.
Mas talvez seja agora que Portugal tenha de demonstrar aquilo que realmente vale.
Porque o caminho para o Mundial nunca seria feito apenas de vitórias.
Nenhuma história verdadeiramente importante é.
Haverá jogos perdidos.
Haverá noites em que nada parece funcionar.
Haverá momentos em que a tabela classificativa parecerá demasiado apertada.
Mas há também quatro jornadas.
Há tempo.
Há margem.
E, acima de tudo, há uma equipa que já provou ser capaz de fazer aquilo que muitos julgavam impossível.
A vitória histórica em Espanha não desapareceu por causa da derrota diante da Geórgia.
Da mesma forma que a derrota em Matosinhos não apaga aquilo que Portugal construiu.
São ambas parte da mesma história.
Talvez seja essa a verdadeira prova
Vencer a Espanha foi histórico.
Perder com a Geórgia foi doloroso.
Mas talvez a verdadeira história desta Seleção ainda nem tenha sido escrita.
Porque agora Portugal enfrenta um desafio diferente.
Já não precisa de provar ao mundo que consegue vencer.
Já o fez.
Agora precisa de provar a si próprio que consegue levantar-se.
Que consegue aprender.
Que consegue olhar para os erros sem fugir deles.
E que consegue regressar mais forte.
É fácil fazer história numa noite perfeita.
Muito mais difícil é continuar a persegui-la depois de uma noite imperfeita.
Portugal perdeu em Matosinhos.
Isso é um facto.
Mas o sonho não terminou ali.
Talvez, no fundo, nunca tenha estado tão claro aquilo que falta fazer.
Porque o Mundial não será conquistado numa única vitória.
Nem perdido numa única derrota.
Será construído jogo após jogo.
Erro após erro.
Vitória após vitória.
E derrota após derrota.
No final, talvez Portugal perceba que aquela noite em Matosinhos não foi o momento em que o sonho começou a fugir.
Talvez tenha sido simplesmente o momento em que a equipa percebeu que, para chegar onde nunca chegou, não basta ser capaz de fazer o impossível uma vez.
É preciso ter a coragem de o voltar a fazer.
Outra vez.
E outra.
Até que o impossível deixe finalmente de o ser.


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